Educação dos filhos

01/04/2013

Bom tempo aquele em que educar filhos era um prazer; aquele tempo em que, crianças, íamos à escola depois de supervisionados pela mãe, preocupada em saber se estávamos uniformizados, se o uniforme estava em ordem, se estávamos bem alimentados, enfim se tudo estava bem. A família nos aconselhava a levar a sério os estudos, a amar a escola, a respeitar os professores, a prestar atenção às aulas. Bom tempo! Na volta para casa, encontrávamos a refeição à mesa, os familiares reunidos para almoço ou jantar, com reserva na jornada para longas conversas e, se preciso, para ensinamentos. 

Era o tempo da “educação de berço”, aquela que primeiro se manifesta nas mais elementares de nossas atitudes. Tempo em que os pais estavam, em todos os momentos, presentes na educação dos filhos. Hoje tudo mudou: a sociedade, dizem, progrediu; há intenso progresso tecnológico, a vida é digital e tornou-se deveras imperativa; o momento é sempre urgente, o consumo sempre pedindo mais, urge, pois, que se ganhe mais dinheiro para mais consumo; requer-se que a mulher também trabalhe fora do lar para compor a renda familiar, as aparências falando mais alto que a essência. Diante dessas urgências, como ficam os filhos?

Com quem ficam os filhos? Sem dúvida, a vida moderna obrigou os pais a terceirizarem a educação de seus rebentos. O melhor lugar para os instalar é mesmo a escola, com pedagogos e professores. Se são muito pequeninos, com menos de dois anos, ficam em berçários, nem sempre com babás preparadas para tal fim. Após dois anos, vão para as creches, cuja administração deve ser feita por especialistas em educação infantil, de preferência com o curso superior de Pedagogia concluído. Se as crianças estiverem em idade pré-escolar, vão para as pré-escolas, também dirigidas e coordenadas por pedagogos e psicopedagogos formados. Se estão em idade escolar, cumprirão o ensino fundamental e médio que lhes deve garantir a melhor qualidade. Mas será que esses critérios são rigorosamente cumpridos? 

“Os que cuidam de crianças e de jovens gostam deles de verdade, a ponto de sentirem-se felizes por realizar essa missão?”

Os que cuidam de crianças e de jovens gostam deles de verdade, a ponto de sentir-se felizes por realizar essa missão? E os pais? Confiam inteiramente em professores e cuidadores? Colaboram com eles, cumprindo a sublime missão da paternidade e da maternidade? Educam os filhos em casa? Dedicam um tempo para isso? Convivem, o mais que podem, com as crianças e os jovens? Passeiam com eles? Brincam com eles? Contam-lhes historias? Estimulam os ideais e os sonhos dos filhos? Impõem-lhes limites? Sabem dizer não, ou barganhar? Se têm pouco tempo para a família, pelo menos organizam esse tempo, para que a qualidade do relacionamento seja a melhor possível? Ou se sentem culpados pela ausência e tentam se desculpar oferecendo aos filhos, com frequência, presentes, bens materiais, coisas, objetos de desejo, tudo quanto eles desejam, como se essa maneira de agir fosse resolver o problema e preencher a imensa lacuna de amor e de afeto de que eles carecem?

É penoso dizer, mas infelizmente, na maioria dos casos, a educação de berço, nesses tempos difíceis, tem sido atribuição da escola, mais propriamente dos professores, que deixam de lado a instrução para a qual foram preparados, a fim de dedicar-se à educação dos petizes. E nem pensar em ser fácil essa tarefa; por um lado, o próprio educando recusa-se a receber educação por essa via, achando, por exemplo, que não cabe aos professores ensinar-lhes “boas maneiras”; por outro, os pais sentem-se ofendidos ao saber que os filhos foram chamados à atenção para o cultivo de valores e de atitudes éticas. Eis o dilema por que passa a escola na modernidade: se educar será condenada, se não instruir será castigada.

Isto quer dizer que o mundo mudou sensivelmente, que mudanças sempre são alvissareiras, e se ainda não são, é porque a sociedade não está preparada para enfrentar e aproveitar com sabedoria esse novo tempo. 

Maria Deosdédite Giaretta Chaves é professora. 

detegiaretta@hotmail.com