A formação dos hábitos alimentares na infância - Texto discutido na Reunião de Pais com a Dra. Sueli Zampieri

22/06/2013

A FORMAÇÃO DOS HÁBITOS ALIMENTARES NA INFÂNCIA

Janaína Mello Nasser Valle, Marilene Pinheiro Euclydes, Nutricionista, especialista em nutrição

materno-infantil UFV, Nutricionista do Hospital Regional Dr João Penido, Juiz de Fora MG,

**Economista Doméstica, Especialista em Nutrição materno-infantil – Purdue University EUA,

Professora na UFV Viçosa MG

Experiências intra-uterinas

  • O feto é exposto a uma variedade de estímulos sensoriais in útero. O aparelho necessário para detectar tais estímulos, as papilas gustativas, aparece pela primeira vez por volta da 7ª e 8ª semana de gestação.
  • As papilas gustativas são capazes de conduzir informações sensoriais ao sistema nervoso central no 6° mês de gestação e as conexões neurais são adequadas para provocar alterações na salivação e na sucção.
  • É possível que experiências intra-uterinas contribuam para preferências de sabores. O líquido amniótico é aromático e o seu odor é influenciado pela dieta da mãe. A semelhança de aromas entre o líquido amniótico e o leite materno pode estar envolvida na preferência do recém-nascido pelo cheiro do leite materno.

O paladar do recém nascido

Um estudo revelou que, durante as primeiras horas de vida, os lactentes exibiram expressões faciais de relaxamento e movimentos de sucção em resposta ao sabor doce dos açúcares. Já o sabor azedo do ácido cítrico concentrado e o sabor amargo da quinina e ureia concentrados provocaram caretas faciais. Nenhuma resposta facial distinta foi relatada para a estimulação com sal.

Leite materno

Pesquisas têm indicado que a alimentação das mães durante a lactação pode afetar o sabor do leite. Os compostos químicos que dão sabor e aroma aos alimentos são ingeridos pelo lactente através do leite materno, e dessa maneira a criança vai sendo introduzida aos hábitos alimentares da família. A composição do leite se modifica à medida em que a lactação progride. Os níveis de lactose diminuem e aumentam os de cloreto, tornando o leite levemente salgado. Essa mudança pode favorecer a aceitação dos alimentos complementares no tempo oportuno.

Neofobia

A transição da dieta láctea da primeira infância para a alimentação da família requer que a criança aprenda a aceitar pelo menos alguns dos novos alimentos oferecidos a ela. A relutância em consumir novos alimentos recebe o nome de neofobia. Muitos dos alimentos que as crianças rejeitam inicialmente terminarão sendo aceitos se a criança tiver ampla oportunidade de provar os alimentos em condições favoráveis.

A aprendizagem é fator importante na aceitação dos novos alimentos, e está cientificamente provado que existe relação direta entre a frequência das exposições e a preferência pelo alimento. A exposição repetida à prova de alimentos não familiares é uma estratégia promissora para promover preferências e prevenir rejeições alimentares por crianças. São necessárias de 5 a 10 exposições a um novo alimento para se ver um aumento na preferência pelo mesmo. A rejeição inicial ao alimento muitas vezes é erroneamente interpretada como uma aversão permanente ao mesmo, e este acaba sendo excluído da dieta da criança. Pesquisas têm mostrado que quanto mais cedo for a experiência de introdução dos alimentos menor será a neofobia por alimentos.

Regulação da ingestão de alimentos

Densidade energética

A capacidade de ajustar a ingestão de alimentos em resposta à densidade energética, ou seja, à quantidade de energia fornecida por grama de peso do alimento, influencia os padrões de aceitação do alimento pelas crianças, delineando tanto suas preferências quanto as quantidades de alimento consumido.

Palatabilidade

As sensações do paladar servem como um indicador do valor nutricional de alimentos e são importantes no desenvolvimento de preferências alimentares. As propriedades sensoriais dos alimentos com um maior teor energético são preferidas, indicando que o maior teor energético é suficiente para estabelecer uma preferência. 

Fatores ambientais

Alimentação dos pais

A alimentação dos pais costuma exercer influência decisiva na alimentação infantil, afetando a preferência alimentar da criança e sua regulação da ingestão energética.

Um estudo foi realizado para se determinar se experiências alimentares nos primeiros dois anos de vida influenciam na variedade de consumo alimentar por crianças em idade escolar. Os resultados revelaram que a variedade de vegetais consumidos por crianças em idade escolar foram preditos pelas preferências de vegetais das mães, enquanto o consumo de frutas se relacionou à variedade de frutas no período de introdução da alimentação complementar. A educação nutricional passada pelas mães deveria enfatizar a importância da experiência da alimentação nos primeiros dois anos de vida, para favorecer a aceitação de variedades de vegetais e frutas na idade escolar.

Comportamento do cuidador

As refeições representam um importante evento nas interações familiares. As crianças aprendem muito cedo que os alimentos são servidos em uma ordem particular nas refeições, como, por exemplo, a refeição e depois a sobremesa e que as ocasiões sociais especiais, como os aniversários, pedem alimentos diferenciados. A investigação dos efeitos destes contextos sociais ligados à alimentação sobre a formação das preferências alimentares das crianças revelou que as práticas de alimentação comuns podem ter efeitos não pretendidos e desfavoráveis sobre os padrões de  aceitação dos alimentos pelas crianças. Por exemplo, quando os alimentos são administrados às crianças em contextos sociais positivos, como recompensas, as preferências por tais alimentos são reforçadas. Também parece que restringir o acesso das crianças a alimentos palatáveis torna tais alimentos ainda mais desejados. O efeito oposto sobre a aceitação de alimentos pode ser obtido quando os responsáveis forçam as crianças a comer, por exemplo, legumes e verduras, a fim de ganhar recompensas. As crianças formam associações entre os alimentos e os contextos sociais em que a alimentação ocorre através da aprendizagem.

Condição sócio-econômica

Estudo realizado nas grandes regiões urbanas brasileiras mostrou que, em alguns lugares, famílias com renda mensal de até oito salários mínimos apresentaram ingestões calóricas inferiores às recomendações mínimas.

Influência da televisão

A televisão é um dos fatores potenciais que estimulam a alimentação. A exposição de apenas 30 segundos a comerciais de alimentos é capaz de influenciar a escolha de crianças por determinados produtos.

Alimentação em grupo

As mudanças no estilo de vida familiares atuais levaram muitas crianças a passarem parte, ou a maioria de seus dias, em creches ou pré-escolas. Para muitas crianças, mais do que a metade dos nutrientes consumidos diariamente pode ser oferecida nestes estabelecimentos. Devido à pressão dos colegas, as crianças normalmente comem bem em grupo. Estes estabelecimentos são também ambientes ideais para programas de educação nutricional. 

http://www.ufjf.br/nates/files/2009/12/Hinfancia.pdf (artigo completo)